terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A Ideologia Vascaína



Quando me propus a desenvolver este blog, tinha em mente a idéia de fazer algo que transcendesse o âmbito do futebol e do esporte de uma forma geral. É claro que, como vascaínos, devemos sempre estar a par do que ocorre no cenário desportivo do nosso Clube afinal, de acordo com o artigo primeiro do nosso estatuto, são as atividades esportivas, recreativas, assistenciais, educacionais e filantrópicas que movem o C. R. Vasco da Gama. No entanto, temos inúmeros outros sites e blogs que tratam destes temas sendo que, se eu aqui mantivesse esta mesma linha, me tornaria repetitivo. Como citei na primeira postagem, pretendo seguir à risca o nome MILITÂNCIA VASCAÍNA e construir uma página com ideais e pensamentos vascaínos, fazendo uma interface da história do Clube com o que hoje está em vigor no Vasco e no Brasil.

Para isso, devemos ter de entender o conceito de ideologia. Ideologia, segundo o ¨Dicionário escolar da língua portuguesa¨ (1986) de Francisco da Silveira Bueno, é, dentre outras coisas, ¨um sistema de idéias, convicções religiosas e políticas.¨

O ideário de uma convicção política no Vasco não é de difícil entendimento. Podemos apresentar este tema em dois aspectos. Um específico e outro ampliado: 1) a esfera política do Vasco que encontra-se fragmentada, obrigando-nos a tomar uma decisão sobre qual lado devemos ficar; 2) a política geral do Clube perante a outros clubes e a mídia controladora.

O conceito de religião, segundo o mesmo livro de Francisco da Silveira Bueno, significa ¨um conjunto de práticas e princípios que regem as relações entre o homem e a divindade¨. Claro que não devemos comparar o Vasco a um Deus ou a uma inteligência inatingível, mas é notório que nós, vascaínos, possuímos fidelidade e regimento intrínsecos que se comparam ao sentimento religioso. Que vascaíno legítimo nunca abdicou de alguma atividade em determinado dia porque tinha jogo do Vasco? Que vascaíno legítimo nunca comprou briga por alguém ter falado alguma imbecilidade referente ao Clube? Que vascaíno legítimo nunca sacrificou-se para assistir ao Vasco longe da sua casa e de seus familiares? Deve-se admitir que não há exagero algum quando nós, torcedores leais, entoamos: ¨Vasco da Gama, minha paixão! Vasco da Gama, religião!¨.

Posto isso, qual é a ideologia do Vasco? O que norteia do Clube e que, por conseguinte, nos norteia também?

A história do Vasco é fortemente marcada por alguns princípios básicos: superação, dignidade, pioneirismo, caráter, humildade, democracia, igualdade e conquista.

O C.R. Vasco da Gama, fundado em 21 de agosto de 1898, surgiu como instituição desportiva ligada ao remo. Jovens do Rio de Janeiro estavam cansados de deslocarem-se à Niterói para praticar o esporte. Desta forma, cerca de 62 homens (portugueses e não portugueses), reunidos numa sala da Sociedade Dramática Filhos da Talma, no bairro da Saúde no Rio de Janeiro, decidiram instituir o Club de Regatas Vasco da Gama.

"Aos 21 dias do mês de agosto de 1898, às 2:30 horas da tarde, reunidos na sala do prédio da Rua da Saúde número 293 os senhores constantes do livro de presenças, assumiu a presidência o Sr. Gaspar de Castro e depois de convidar para ocuparem as cadeiras de secretários os senhores Virgílio Carvalho do Amaral como primeiro e Henrique Ferreira como segundo, declarou que a presente reunião tinha o fito de fundar-se nesta Capital da República dos Estados Unidos do Brasil, uma associação com o título de Club de Regatas Vasco da Gama (...)"

Com as históricas palavras da ata de fundação a história do Vasco tem início. Permanecemos como um clube restrito à prática do remo até o ano de 1915. Neste período, a prática do futebol começava a ganhar popularidade no Brasil e no Rio de Janeiro que, até então, era a capital brasileira. Voltando dois anos, em 1913, a convite do Botafogo, uma seleção de Lisboa desembarcou no Rio para a inauguração do estádio de General Severiano. A passagem desta seleção motivou membros da colônia portuguesa residentes na capital do Brasil a criarem clubes de futebol. Três inexpressivos clubes foram fundados, dentre eles o Lusitânia Futebol Clube. O Lusitânia, em novembro de 1915, foi fundido ao Vasco fazendo surgir o nosso departamento de futebol. Assim, a prática do esporte bretão, que é a paixão do brasileiro, surgiu para nós há 96 anos.

Em 1916 o Vasco estrearia na terceira divisão do carioca permanecendo até 1920. Em 1922 o Vasco conquista a segunda divisão tendo o direito de disputar a primeira no ano seguinte. Nossa primeira característica ideológica: a humildade. Começamos por baixo e chegamos no patamar dos grandes por merecimento.

Até então, futebol era um esporte da elite. Segundo as palavras do ex-presidente do Vasco, Eurico Miranda, ¨os antigos torcedores eram senhores que iam aos estádios com chapéu gelô e polaina acompanhando suas senhoras que portavam sombrinhas e vestidos longos¨. De fato, toda essa elegância apresentada pela torcida refletia na alta sociedade que freqüentava os estádios de futebol. Nomes de clubes como ¨Sport Club Corinthians Paulista¨, ¨Fluminense Football Club¨, ¨Grêmio de Foot-ball Portoalegrense¨ e até mesmo o ¨América Football Club¨ denunciam a grande influência Britânica no esporte que foi adotado no Brasil.

Eis que, em 1923 surge na elite do futebol carioca um clube da zona-norte que, apesar da ascendência portuguesa, abriu as portas para negros, pobres e operários. Nossa segunda característica ideológica: o pioneirismo. O pensamento dos ditos grandes quando o Vasco ascendeu à elite foi de indiferença. Afinal, em que um clube da segunda divisão cujos jogadores moravam em alojamentos e treinavam num campinho que nem para jogos oficiais servia poderia ameaçar? Poder-se-ia colocar quantos negros e pobres os portugueses quisessem que tudo iria continuar como sempre foi, ou seja, os clubes grandes da elite branca, dominando os menores.

Time do Botafogo em 1907

Time do Fluminense em 1918

Time do flamengo em 1912

Time do Vasco em 1923

Quantos negros você consegue ver nos três primeiros times acima? E no Vasco?

Soberba. Quanto mais o Vasco jogava, mais vencia. O desprezo se transformou em inveja quando, ao final do Carioca de 23, levantamos a taça com 12 vitórias de 14 jogos.

Preocupados com a guinada que o Vasco apresentou nos últimos anos e tentando evitar que isso acontecesse nos próximos anos, membros da elite do esporte carioca passaram a perseguir o Vasco fazendo investigação das posições sociais dos atletas do Clube. Em 1924, Carlos Guinle, presidente da AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athléticos) fundada recentemente pelos 5 grande clubes do Rio de Janeiro (Fluminense, Botafogo, América, Bangu e flamengo) determinou que o Vasco, se quisesse participar desta nova liga, deveria dispensar do seu plantel 12 de seus jogadores pois estes teriam ¨origem duvidosa¨. Racismo escancarado. Como revide, o presidente do Vasco, Dr. José Augusto Prestes, emitiu a 7 de abril de 1924, a ¨Resposta Histórica¨. O maior título do Vasco fora dos gramados:

"Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.

Ofício nr. 261

Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle

M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.

Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado

(a) Dr. José Augusto Prestes - Presidente"

Mais quatro características ideológicas: o caráter, a dignidade, a igualdade e a democracia.

Desta forma o Vasco permaneceu na LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres) e foi novamente campeão carioca por esta associação em 1924. Um ano se passou e em 1925 o Vasco foi admitido na AMEA, mesmo com seus jogadores negros, pobres, nordestinos e mulatos.

Anos mais tarde, mais um impasse para o Vasco permanecer na AMEA: ter um estádio. Os grandes diziam que não poderiam permitir a presença do Vasco na liga até o Clube ter um estádio próprio. Até então, o Vasco disputava seus jogos no campo do Andaraí. Com isso, entre 1924 e 1926 a diretoria do Vasco começou a angariar fundos para a construção da praça de esportes do Clube. Em 1925, foi adquirido um terreno no alto de uma colina no bairro de São Cristóvão e lá, os sócios, a vizinhança e os torcedores comuns do Clube começaram, em junho de 1926, a construir o estádio do Vasco. Menos de um ano quase um ano mais tarde, o Estádio Vasco da Gama estava consolidado, tendo o jogo inaugural em 21 de abril de 1927 contra o Santos. Nossa sétima característica ideológica: a superação.

A partir daí o Vasco começou a reafirmar-se como grande clube que era, figurando sempre entre os grandes. Em 1942 surgiu o nosso inesquecível Expresso da Vitória que reafirmou nosso pioneirismo ao fazer do Vasco, em 1948, o primeiro clube Brasileiro campeão de um torneio internacional: O Campeonato Sul-Americano de Clubes. Vencemos de forma invicta a competição que, em 1996, foi considerada pela CONMEBOL como embrião da Taça Libertadores da América. Foi graças a Barbosa, Ademir, Bellini, Danilo, Eli, Friaça, Ipojucan, Tesourinha, Rafagnelli, Sabará, Maneca, Lelé, Jorge, Chico e Augusto que pudemos confirmar a característica ideológica que nos marca com mais veemência: a conquista. Esta e outras características que fazem do Vasco um exemplo para a vida em sociedade foram ratificadas ao longo dos anos e da história do Vasco. A presença do primeiro presidente negro num clube, Cândido José de Araújo, em 1905 e o surgimento do Colégio Vasco da Gama, em 2004 marcam o pioneirismo, a humildade, a democracia e a igualdade; Os diversos títulos vencidos pelo Vasco, como os 22 Estaduais da primeira divisão, os 4 Campeonatos Brasileiros, a Copa do Brasil, as 3 Copas Rio-São Paulo, o título da Libertadores no ano de Centenário, dentre outros, são reafirmações da conquista que não é uma opção no Vasco, mas um destino; Por fim, a virada histórica em cima do Palmeiras no título da Mercosul de 2000, a recuperação em 2011 após uma década perdida (2001 – 2010) seguida da retomada do sentimento vascaíno após a queda para segunda divisão em 2008 e posterior conquista do título da Série B no ano seguinte, além da recente virada em cima do Universitário do Peru pela Copa Sulamericana, mostram que nosso poder de superação ainda é forte e que não se deve nunca duvidar do Vasco.

O conjunto de crenças e convicções do Vasco é marcante e único. Devemos sempre ter foco nele. A ideologia vascaína construiu uma instituição vencedora e ela deve continuar sendo base para a fomentação de cidadãos de bem com vistas no compromisso com um futuro formado por pessoas menos arrogantes, prepotentes e presunçosas.

Saudações Vascaínas.

Um comentário:

  1. Excelente texto, é por isso que não aceito que jovens Vascaínos não consigam enxergar o peso de nossa história e se deixem levar de forma tão fácil por formas pensamentos que somente servem para dividir o clube.

    Hoje sabemos no que deu essa divisão: apequenamento.

    Esse não é o Vasco da essência, isso é outra coisa.

    Abraços

    NCosta

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